
A OMS (Organização Mundial da Saúde) é clara: ainda que o consumo moderado de álcool esteja socialmente normalizado, a bebida é uma substância tóxica, capaz de causar danos progressivos mesmo quando consumida em pequenas quantidades.
Como destaca o cardiologista Eugênio Moraes, “não existe dose segura para o álcool”. Segundo ele, mesmo o consumo considerado leve pode ter repercussões ao longo do tempo em diversos sistemas do corpo, incluindo o neurológico, o cardiovascular e o hepático.
É por isso que uma pausa no álcool pode fazer diferença. Os efeitos benéficos começam nos primeiros dias e se acumulam semana após semana.
Fígado é um dos primeiros a sentir os benefícios
Logo nos primeiros dias sem álcool, o corpo inicia um processo de limpeza e regeneração. Um dos órgãos que mais sente essa pausa é o fígado, responsável por metabolizar a maior parte do álcool consumido.
“O fígado tem a oportunidade de se recuperar e reduzir a inflamação, o que pode levar à diminuição do acúmulo de gordura no órgão, melhorando sua função geral e ajudando na regeneração de células hepáticas”, explica Felipe Gazoni, médico pós-graduado em nutrologia.
Segundo a nutricionista Thays Pomini, a capacidade do fígado de processar outros nutrientes e toxinas melhora bastante, otimizando a produção de glicose e a síntese de proteínas essenciais.
Melhora do sono e da disposição
Falando em regeneração, o sono também melhora sensivelmente. Muita gente acredita que dormir após beber é mais fácil, mas a verdade é que o o descanso é de qualidade inferior, pois ele fragmenta nossos ciclos de sono REM (o sono mais profundo). Por isso, sem o consumo de álcool, o sono se restaura.
Ao interromper o consumo, o sono se torna mais profundo e reparador, o que se reflete em mais energia ao longo do dia. Além disso, sem o álcool, os níveis de serotonina e dopamina (neurotransmissores ligados ao prazer, motivação e humor) se estabilizam. Com isso, a pessoa tende a acordar mais disposta, com mais foco, clareza mental e menor sensação de cansaço ou apatia.
Impacto sobre metabolismo e nutrientes
Quem bebe regularmente pode sofrer com o armazenamento inadequado de várias vitaminas e minerais essenciais, o que acarreta deficiência contínua. “Isso pode resultar em uma série de problemas de saúde, incluindo doenças neurológicas, osteoporose, imunidade comprometida, problemas de visão e fadiga crônica”, fala Gazoni
Um mês sem beber permite que o corpo recupere esse equilíbrio. “O álcool interfere na absorção de vitaminas do complexo B, vitamina C e D, magnésio, zinco e ferro. Após cessar o consumo de álcool, especialmente quando combinado com uma alimentação equilibrada, os níveis desses micronutrientes começam a se normalizar”, garante Pomini. Isso pode ser sentido por meio de uma imunidade mais forte e uma melhora da saúde geral.
Pele visivelmente mais bonita
Uma das mudanças mais perceptíveis para quem corta o álcool é a melhora na aparência da pele, já que a bebida é diurética, desidrata e aumenta a inflamação sistêmica. “Sem o álcool, melhora a circulação, a hidratação e a produção de colágeno. A pele fica com mais viço e menos olheiras”, diz o endocrinologista Renato Zilli.. Também há redução da inflamação e das toxinas acumuladas, o que ajuda a amenizar vermelhidão, inchaços e até acne.
O que muda no “shape”
O álcool é calórico, inflamatório e prejudica diretamente a queima de gordura e o ganho de massa muscular. “O emagrecimento após parar de beber não é apenas uma questão de calorias vazias eliminadas. O álcool interfere na oxidação de gorduras, pois prioriza seu próprio metabolismo em detrimento da gordura corporal”, diz Pomini. Ou seja, sem álcool, o corpo se torna muito mais eficiente em queimar gorduras.
Além disso, o álcool afeta hormônios fundamentais para o crescimento muscular. “Ele atrapalha a recuperação muscular, além de reduzir os níveis de testosterona e GH. Sem ele, a pessoa melhora o rendimento, o ganho de massa e o foco no treino”, complementa Zilli. “A hipertrofia muscular também se acelera significativamente”, garante Pomini.
Coração também agradece
O sistema cardiovascular também sente os efeitos positivos. Como explica o cardiologista Eugênio Moraes, o consumo regular de álcool pode favorecer arritmias, hipertensão arterial e até miocardiopatia alcoólica, uma forma de insuficiência cardíaca causada pela toxicidade do álcool. “Quando você bebe de forma moderada, mas regular, você pode ter essas afeições do sistema cardiovascular. Mas se você interromper o consumo, não terá um prejuízo no curto prazo”, diz.
Um dos benefícios mais claramente sentidos tem relação com a redução da pressão arterial. O álcool pode aumentar a pressão, favorecendo o desenvolvimento da hipertensão, que é um dos principais fatores de risco para infarto e AVC. Ao interromper o consumo, o coração passa a trabalhar com mais eficiência, com melhora da frequência cardíaca e menor risco de arritmias.
Fontes: Eugênio Moraes, médico pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), cardiologista e doutor pelo Incor (Instituto do Coração); Felipe Gazoni, médico nutrólogo, pós-graduado pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia) em obesidade e sarcopenia; Thays Pomini, nutricionista pós-graduada em nutrição estética e esportiva, em nutrição fitoterápica e em genética e epigenética; Renato Zilli, endocrinologista, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e do corpo clínico do Hospital Sírio Libanês.